N'água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

"Entre o ser e as coisas"
Carlos Drummond

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O Mago e o Fogo

Neste dia, 17 de fevereiro, no ano de 1600, Giordano Bruno era queimado vivo pela Inquisição.

Conhecido como mártir da ciência - ele defendia não apenas que a Terra é que gira em torno do Sol, e não o contrário, mas, indo além, dizia que o Universo era infinito -, Giordano foi muito mais um mártir da liberdade de pensamento. Suas visões de astronomia, até então, não eram vistas como heresias pela Igreja.

O que pesou contra ele foi outra afirmação - a de que Jesus Cristo não era Deus, mas apenas um grande mago. Aliás, isso é o que Giordano era, acima de tudo: um mago, um mago-filósofo. Um de seus livros se chama justamente "Tratado sobre a Magia".

Sua tendência a flertar com ideias heréticas começou quando ainda estava no convento dominicano, aos vinte e poucos anos. Acusado de discutir a heresia ariana - justamente a que nega a Cristo o caráter divino -, foi forçado a fugir, quando começaram a surgir acusações formais.

Sua vida depois disso foi marcada pela peregrinação. Passou pela Suíça, pela França, Inglaterra e Alemanha. Em todos esses lugares enfrentou problemas com as autoridades locais, devido à sua insistência em dizer o que pensava.

Em 1591, foi convidado por um nobre de Veneza a ir para essa cidade, onde lhe ensinaria a arte da memória. Porém, chegando lá, Bruno percebeu que o nobre tinha motivos egoístas para querer aprender a arte, e se recusou a ensinar-lhe. O nobre, então, em 1592, o denunciou à Inquisição.

O que veio a seguir foram oito anos de julgamento. Ao final, como Giordano se recusou a se retratar, foi condenado. Com uma tábua pregada em sua língua, para ele não poder mais "blasfemar", foi queimado vivo na fogueira.

Hoje, na praça em que foi assassinado, em Roma, há uma estátua do filósofo-mago.

Uma pergunta fica no ar: vale a pena morrer para defender suas ideias? Quem faria isso, nos dias de hoje? Não sei exatamente. Porém, ainda há pessoas que morrem, se não para defenderem ideias, para defenderem ideais políticos. São poucos em termos relativos, mas ainda há os que defendem direitos humanos, em diversas partes do mundo, sabendo que correm o risco de "desaparecer" - termo eufemístico para "ser assassinado" - e muitas vezes é isso o que acontece.

Giordano Bruno o fez. Termino com a frase que atribuem a ele, no momento em que sua sentença foi lida.

"Talvez vocês tenham mais medo, ao ler minha sentença, do que eu, ao ouvi-la".

2 comentários:

Luis Fernando disse...

É difícil imaginar o quão absurdo era alguém dizer o que Giordano Bruno dizia no século XVI. Em uma sociedade totalmente dominada pelo aspecto religioso - e, se a Igreja Católica começava a perder terreno, justamente por isso aumentava sua repressão - não haveria espaço para discordar da ordem dominante.
Mas, por outro lado, já era tempo de florescimento das humanidades, filosofar era cada vez mais praticado. Giordano não foi o único - a inquisição queimou como nunca naqueles tempos.
E, mesmo assim, é de se refletir sobre uma postura de resignação diante da morte em contrapartida de renunciar às suas idéias e continuar vivo. Prezamos demais nossa vida, as vezes mais do que nossa dignidade ("é melhor um covarde vivo do que um corajoso morto").

saxviolino disse...

SERÁ QUE UM DIA A HUMANIDADE FICARÁ LIVRE DA RELIGIÃO? SERÁ QUE UM DIA A HUMANIDADE FICARÁ LIVRE DAS CRENÇAS RELIGIOSAS? PORQUE AS PESSOAS AINDA NÃO PERCEBERAM QUE DEUS É APENAS UMA FORMA DOS GOVERNANTES ESCRAVIZAREM AS PESSOAS? SE EXISTISSE ESSES GOVERNANTES NEM TERIAM NASCIDO.