N'água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

"Entre o ser e as coisas"
Carlos Drummond

terça-feira, 4 de novembro de 2008

O manejo

O passado o atormentava. Dono de uma memória de fazer inveja a Giordano Bruno e Julien Sorel, seu problema era tão grave que freqüentemente sofria desmaios, no vórtice de um surto de recordações. Sua mente tinha uma terrível inclinação a absorver todos os acontecimentos, de tal maneira que só restavam os maus.

Seu primeiro relacionamento foi um desastre. Não conseguia se livrar da impressão pouco motivadora que herdou do relacionamento turbulento dos tios. Sempre que as coisas ficavam boas, um evento desfavorável do passado surgia sussurrando em seus ouvidos, semeando desconfiança, ao final malogrando qualquer vislumbre de convivência íntima entre os amantes. Os seguintes foram ainda piores. A recordação do primeiro estragou o segundo, que por sua vez juntou-se àquele para acabar com o terceiro.

Numa sucessão desgovernada de fracassos, o memoriado terminou cansando. Pensou em acabar com tudo, mas não conseguia se decidir entre as inúmeras e nada animadoras opções no menu dos suicidas. No meio desse dilema, o telefone tocou. A prima recomendou-lhe um psiquiatra.

Adiou então a escolha, aliviado, pois fazer escolhas sempre o estressava. O médico o recebeu. Engatando lembranças novas a cada três frases, o paciente tinha dificuldade de manter a coesão de seu discurso. Adepto da associação livre, o outro ouvia.

Algumas semanas depois, o nosso herói estava à beira do colapso. As lembranças odiosas já se acumulavam naquela sala onde cuspia suas frustrações. O analista então sentenciou: “você precisa reaprender a manejar a peneira”. O atormentado homem saiu do prédio, foi andando e sem perceber chegou numa praça. Ao seu lado, um bar. Pediu uma loura.

Lembrou do riso da primeira namorada. Das frases articuladas da segunda. A terceira aparecia deslumbrante e nua. Depois do terceiro copo, buscou um número no celular. Estava lá. Apertou o botão. Já sabia o que fazer.

Um comentário:

Juliana Stanzani. disse...

Acho que foi, até agora, o melhor; mas isso é segredo. Fato é que salame não é linguiça. Peneira não é filtro. Toda aquela divagação.