N'água e na pedra amor deixa gravados
seus hieróglifos e mensagens, suas
verdades mais secretas e mais nuas.

"Entre o ser e as coisas"
Carlos Drummond

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

A Psique de um Mestre


Há exatos 15 anos, Michael Jordan anunciou sua aposentadoria. Bem, sua primeira aposentadoria – apenas a terceira foi definitiva.

O que faz esse abandono das quadras ser tão estranho é a circunstância em que veio. Jordan em seu auge, aos 30 anos, acabando de ganhar seu terceiro título consecutivo com o Chicago Bulls. Tudo indicava que ele ganharia ainda vários outros títulos. Na época, poucos acreditavam que alguém iria destronar “his airness” e seus companheiros.

Isso já dá uma dica para entendermos o primeiro motivo de sua desistência. Jordan, segundo pessoas próximas, um ano antes já mostrava sinais de enfado. Pra que continuar jogando, se eu já sei que vou ganhar tudo? MJ precisava de desafios, e não os enxergava mais no basquete.

Mas há um outro motivo, provavelmente mais decisivo.

No dia 23 de julho de 1993, James Jordan, pai de Michael, voltava do enterro de um ex-colega de fábrica, nas estradas da Carolina do Norte. Ao invés de parar em um hotel para descansar, James fez como sempre fazia: encostou o carro e dormiu ali mesmo. Uma coisa que fizera por toda a vida, despreocupadamente, dessa vez seria fatal. Dois garotos de 18 anos resolveram assaltá-lo, e acabaram fazendo mais do que isso. Com um tiro no peito, roubaram a vida daquele senhor desacordado. Saíram com o carro e jogaram James Jordan num rio – seu corpo só foi encontrado uma semana e meia depois. Ao longo desse tempo ele teria feito 57 anos.

Michael Jordan era muito próximo do seu pai. Dizem que a caligrafia de um era tão parecida com a do outro, que era difícil distinguir qual era qual. A marca registrada (bem, uma delas) de “Air” Jordan, colocar a língua para fora, no meio de uma jogada importante, foi herdada do pai. Este não perdeu um jogo do filho, quando atuava pela Universidade North Carolina. É ele à esquerda, junto de MJ, no seu primeiro título.

O que o gênio das quadras disse ao se retirar foi mesmo relacionado ao primeiro motivo: “eu não tenho mais nada a provar”.

Porém, o que ele fez depois disso aponta para o segundo. O sonho de James Jordan era que o filho fosse jogador da Liga Maior de Baseball. Então, lá vai o “pequeno” Michael... jogar baseball, ora. Porém, não exatamente como o pai queria – evidentemente, MJ não tinha formação como jogador desse esporte, e acaba indo parar na Liga Menor. Mas isso não importa. Ele estava lá, profissional de baseball, como o pai queria. Sabe-se lá se na fantasia de Michael não sobrava espaço para sonhar com a Liga Maior.


Enquanto isso, a mídia vai acompanhando, incrédula, assim como os fãs. Não tenho como saber isso com certeza, mas acredito que esse desvio de curso na carreira de um grande do esporte é sem precedentes, e não aconteceu de novo, ainda.

Bem, se MJ não tinha mais nada a provar no basquete, não conseguiu provar nada no baseball, a não ser que não era atleta desse esporte.

O seu Chicago Bulls, na primeira temporada sem Jordan, fez uma boa campanha, mas acabou eliminado pelo New York Knicks na semifinal do Leste. No ano seguinte, porém, metade do campeonato se passou e eles lutavam para permanecer na briga para alcançar os mata-matas.

Foi então que, no dia 18 de março de 1995, o rei decidiu ser bondoso com seus súditos órfãos e divulgou uma nota para a imprensa, concisa à exaustão, mas dizendo muito: “I’m back” (“estou de volta”).

O que se seguiu, no primeiro jogo de sua volta, foi a maior audiência da história num jogo de temporada regular. Vestindo o número 45, depois que o 23 tradicional fora imortalizado pelo Bulls, daí a dez dias ele iria ao Madison Square Garden para fazer 55 pontos em cima do NY Knicks.

O Chicago se recuperou e foi aos playoffs. Na semifinal do Leste, contra o Orlando Magic, um ala deste time fez o que não devia. Cutucou a fera. Após o Bulls ser derrotado no primeiro jogo, com um erro de Jordan, Nick Anderson afirmou: “o 45 não é igual ao 23”. Resultado? No jogo seguinte, MJ aparece vestindo o 23. Porém, isso não foi o suficiente, apesar de sua média de 31 pontos. O Orlando venceu a série e avançou.

Agora Michael Jordan já tinha o que provar. Será que o “novo” era inferior ao “velho”?

Para dar continuidade a essa história, digo só isto. No campeonato seguinte (1995-96) o Chicago bateu o recorde de vitórias em uma temporada (72 contra 10 derrotas), foi o campeão e Jordan foi escolhido o melhor jogador do All-Star Game, da temporada regular e das finais, sendo o segundo jogador a conseguir isso na história da NBA. O jogo do título foi no dia dos pais dos americanos, e MJ chorou ao segurar o troféu, assim como havia feito no primeiro título, ao lado do pai, cinco anos antes.

E agora? Ele tinha mais alguma coisa a provar? De qualquer maneira, continuou até 1998, ganhando seu terceiro título consecutivo e sexto na carreira. Aos 35 anos, ainda com muito gás, pára de novo. Aos 38, retorna, dessa vez ao Washington Wizards, time que não chega a lugar nenhum. Com 40 anos, faz 43 pontos em um dos jogos.

Michael Jordan é considerado pela maioria dos fãs e entendidos como o maior jogador de basquete da história. É também um dos que têm a trajetória mais inusual dentro do esporte. Alternando entre a paixão e o tédio, tendo o amor ao desafio como constante, mesmo no momento em que manifesta um alto grau de amor filial, MJ inscreve seu nome na história dentro e fora das quadras. Todo gênio é excêntrico? Sei lá. O fato é que esse cara é mais um entre os imortais.

2 comentários:

Juliana Stanzani. disse...

quero literato-seu. Não abro a mão.

Luis Fernando disse...

é interessante compararmos o Michael Jordan com outro esportista, o Ronaldo Fenômeno. Como ele, o brasileiro recebeu o investimento de uma grande marca esportiva (se não me engano, a mesma) para se tornar algo do nível de um "star system". de fato, se tornou. todavia, me parece que para o Ronaldo o fim de carreira não será como o de MJ, que está no topo da galeira dos maiores do basquete.
imagino que hoje, com os atletas bem sucedidos tornando-se milionários em instantes, casos como o de Jordan, com metas individuais falando mais alto em determinados momentos, serão cada vez mais raros. pra que se matar para avançar seus limites se com dois anos de carreira você ganha a vida?